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Cuba promove apagão digital para silenciar protestos

Agora é avaliar o impacto dessa nova dissidência, armada com celulares que expõem a fragilidade de um governo autoritário, há mais de seis décadas imperando sob partido único

Por Sandra Cohen

Especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em ‘O Globo’

Cuba promove apagão digital para silenciar protestos Entidades que monitoram o tráfego na internet constatam que atividade foi reduzida a zero após onda de manifestações espontâneas contra o regime.

13/07/2021 11h02 Atualizado 13/07/2021

1 de 1 Imagem de protestos em Havana em 12 de julho de 2021 — Foto: Reuters Imagem de protestos em Havana em 12 de julho de 2021 — Foto: Reuters

Por conta e risco do regime cubano, o acesso à internet está bloqueado e há cortes nas linhas telefônicas, o que torna a ilha caribenha isolada e incomunicável após a onda de protestos que surpreendeu o governo no domingo. Enquanto o presidente Miguel Díaz Canel falava em cadeia nacional, por volta das 16h, para tachar os manifestantes de mercenários, as mídias sociais eram silenciadas em todo o país.

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Conforme constataram entidades que monitaram o tráfego na web, como Netblocks, Acess Now e Kentik.ink, a atividade foi reduzida a zero em Cuba, limitando a difusão de informações sobre prisões e desaparecidos, assim como a repressão aos que desafiaram o regime, pelo segundo dia consecutivo.

O blogueiro Norges Rodríguez, fundador do site Yucabyte, que se dedica a avaliar os direitos dos cubanos a partir da tecnologia, observa ao G1 que os protestos deixaram claro que o regime caducou. Ele compara a revolução digital em Cuba à Perestroika, que levou à extinção da União Soviética, no início da década de 1990:

“O governo relutou muito em abrir o país à internet porque sabia que seria perigoso manter o poder da forma como lhe convém. Mas, por outro lado, sem internet não há desenvolvimento econômico possível, e as pessoas se deram conta de que o discurso de justiça social é mentiroso quando são exibidas imagens de privilégios entre autoridades.”

No dilema entre a expansão do acesso online e a manutenção do status quo, o regime deixa evidente que a segunda alternativa é prioritária e única, quando opta pelo apagão digital para tentar conter os protestos e lançar seu rigoroso aparato policial contra os manifestantes.

De acordo com a ONG Cubalex, que se dedica à defesa dos direitos humanos, pelo menos 150 foram presos desde domingo.

Entre eles, há vários integrantes do Movimento San Isidro, a rede de artistas e ativistas que defende abertamente a mudança política em Cuba e tornou-se alvo preferido do regime.

Agora é avaliar o impacto dessa nova dissidência, armada com celulares que expõem a fragilidade de um governo autoritário, há mais de seis décadas imperando sob partido único .

Sem o carisma e o legado dos Castro, Miguel Díaz-Canel é rotulado como marionete e impõe os mesmos métodos para silenciar opositores. Porém, em condições muito diferentes: a insatisfação é alimentada pelas redes sociais que ele tenta, a todo custo, bloquear.

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